Falsa consciência

Estive a investigar esta questão e surgiram algumas ideias que gostaria de partilhar.
Em certas escolas de pensamento, por exemplo, uma maneira de ver as coisas entre muitas, a falsa consciência ocorre quando uma classe falha em reconhecer o curso da ação política e das alianças que são do seu real interesse. Essa classe está debaixo do efeito entorpecente de uma ideologia.

Acontece isto mesmo quando não estamos convenientemente despertos.
A classe política governa hoje muitas vezes sem o apoio da massa abstencionista e, desta forma, parece haver uma falsa consciência, pois o poder teria de fazer coisas necessariamente diferentes se houvesse mais gente a partilhar ideias diferentes e que pudesse escolher um diferente rumo para as governações.
A abstenção é fruto de uma falsa consciência e de uma deficiência na consciência política e cívica das pessoas pois estas desacreditam naqueles que vão decidir muito dos seus rumos durante anos.
A participação cívica não deveria ser feita apenas nas mesas de voto, onde apenas existem poucas escolhas, feitas de cruz, mas deveria haver uma participação maior ao nível das novas ideias das massas populares que podem e devem ser mais valorizadas.
As pessoas têm ideias criativas que podem ser utilizadas politicamente para o bem comum, é isso que quero dizer.
Não são só os políticos que entendem de leis ou de medidas, as pessoas que os elegem devem também participar na criação de novas ideias politicas para a melhoria do bem comum.
Se colocarem as pessoas a pensar sobre o país e sobre como as coisas poderiam ser melhor, poder-se-ia construir, através da iniciativa dos interessados, oriundos de todas as camadas, ideias novas que poderiam mudar e transformar a face de um país.
Não falo em baixos-assinados, mas sim na criação conjunta de novas ideias para melhorar o estado de coisas.
A Apple, organização privada, para fazer a criação do seu Iphone e dos produtos Apple, juntou criativos que passaram meses, anos, somente concentrados a criar ideias para melhorar o sistema anterior.
O resultado foi um êxito mundial que ainda hoje é tido como referência ao nível da arte industrial.
Imagine-se o que se poderia fazer na política, no Estado, nas câmaras, nas juntas de freguesia, nos órgãos que decidem e que fazem andar as coisas neste país.
Havendo tempo para pessoas de todas as camadas e interesses dedicarem-se criativamente à melhoria das instituições, das leis, dos procedimentos, dos métodos, etc, seria aplicar o que se fez no Japão após a II guerra mundial, isto é, seria o aplicar da filosofia da melhoria continua rumo a um ideal contínuo de perfeição.
Esta filosofia baseia-se no querer melhorar continuamente o estados das coisas, das pessoas, das organizações, dos modos de pensar, de fazer, de saber, tudo, fazendo do progresso o grande motivo para a esperança e para o querer fazer sempre melhor.
Imagine-se aplicar este modo de pensar ao nosso estado de coisas em Portugal, na mão de criativos sábios, que, com tempo e boa vontade, unissem esforços, como na Apple, para apenas criarem sistemas melhores, melhorando continuamente o estado das coisas!
Este sistema de criar o novo deveria ser aplicado a empresas, famílias, instituições, igrejas, etc...
Porque criar é também um trabalho, é um trabalho ainda mais difícil que os outros pois implica saber e criar o novo com esse saber, os criativos deveriam ocupar postos de trabalho como todos os outros, nos mais variados lugares, sendo pagos para criar, para mudar para melhor as condições existentes.
Com este tipo de iniciativa, e tendo sempre em conta o conforto do maior número de pessoas e seres, com certeza algo iria melhorar.
Falo apenas de pessoas que passem do mundo das ideias para o mundo das coisas concretas as inovações necessárias para se poder acreditar num progresso sustentado, para todos e feito por todos.
Parece utópico mas é disso que o génio é feito, é preciso que se vejam as causas das coisas, as suas sementes, e mudar a partir daí para melhor, para que hajam melhores frutos, melhores consequências.
Lobbies, dinheiro, poder, fama, amor, todo a gente persegue estas coisas em nome de uma suposta felicidade, mas um genuíno e desinteressado serviço ao próximo e a todos é algo que não reina só no mundo das ideias mas que, quando é colocado em prática, faz verdadeiros milagres criativos.
Algures, vindo do mundo abstrato das ideias surgiu o objeto que agora faz parte da sua vida neste mundo concreto.
Já reparou na quantidade de pessoas que fizeram os objetos com que se rodeia no seu dia a dia?
Ainda se acha sozinho no mundo?
Pois saiba que poucos ou nenhuns dos trabalhadores que fizeram esses objetos foram agraciados com a sua gratidão.
Talvez seja por isso que uma das razões do descontentamento dos trabalhadores seja mesmo esse, falta de gratidão e de reconhecimento pelo seu trabalho.
Isso gerou a falsa consciência de que o seu trabalho foi feito para nada, para outros enriquecerem ou para a indiferença de lidar com máquinas que trataram de tudo.
O dinheiro que receberam com certeza já foi gasto.
O desejo de mais fê-los fazer outras coisas e pensar em outras coisas não olhando muito para o rasto que deixaram.
Uma das coisas que se perdeu com o tempo, e ainda hoje está perdido, é que não há reconhecimento quase nenhum por aquilo que faz um trabalhador no seu dia a dia.
Sim, tem o seu salário, a prazo com certeza, mas onde está o outro salário, talvez tão importante como o dinheirinho ao fim do mês?
Onde está a gratidão, a apreciação pelo bom desempenho, pela arte de fazer algo em prol dos outros?
Desliga-se uma máquina?
Carrega-se num botão e já está?
Quem reconhece a parte anímica de um esforço laboral?
Quem o faz paga dois salários, um a Mamom e um outro à Justiça.
Talvez um dia se acabe com este estado de coisas e se valorizem mais as pessoas, os objetos e os seres cujo fabrico levou tempo de vida das pessoas, de milhões e milhões de pessoas que gastaram o seu tempo de alma ali, para o servir caro leitor, não recebendo de si o mínimo apreço.
Além do salário físico há o salário anímico -ambos são necessários para se ser inteiro no mundo do trabalho.
Caso contrário, e aí está o dilema do ser moderno, vivemos todos fragmentados pavoneando os nossos papéis por mil palcos, sem sequer receber um aplauso no fim...


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