Ao fazer leituras por certos livros de culturas de países distantes, tive a sorte de ter este nas mãos: Bhagavad Gita, o livro sagrado dos povos hindus.
Ao ler com avidez estes conceitos revolucionariamente novos, com milhares de anos de tradição, encontrei uma citação que me deixou sem fôlego:
"As dualidades vão e vêm. Mas o estado livre de dualidade é eterno, imortal, de paz sem fim, de alegria constante - Permanece nesse estado!"
Este conselho davam os sábios indianos à milhares de anos atrás…
As dualidades são:
Bem, Mal, Claro, Escuro, Noite, Dia, Preto, Branco, Verdadeiro, Falso, Sim, Não…
É toda a lógica binária racionalista que exclui e que divide todas as coisas em dois.
Ao pensar algo como bom eu excluo automaticamente o resto que não está aí contemplado e julgo-o como mau.
Ao dizer que algo é o bem eu estou a dizer que o que não é igual a esse bem é o mal...
Dividimos a nossa perceção do mundo em dois quando usamos a dualidade: algo que se identifica connosco é bom e tudo o resto é mau…
Acho isto redutor e os sábios da India também.
E porque não ir além do bem e do mal como falava Nietzsche?
As coisas livres do conceito de bem e de mal ficam eternas, lendárias, imortais, pacíficas, felizes…
As coisas livres de conceitos ficam com a nitidez da liberdade.
As coisas livres do eu inferior que tudo julga e que tudo rotula saem da prisão e libertam o prisioneiro juiz que é cada um de nós.
Encontrei uma pedrada no charco da cultura velha e gasta em que nos movemos - ir além da dualidade das coisas, limpar completamente as ações que excluem, varrer completamente as emoções que egotizam e dividem, sanear de vez os pensamentos que julgam e nos prendem prendendo os outros.
E como o que resiste persiste, digo adeus às armas do julgar arbitrariamente e dou as boas vindas ao silencio que une tudo no amor.
Se há que amar para se ter liberdade, amemos no silêncio o que as coisas nos dizem e não aquilo que dizemos sobre as coisas.
Todo o ruído que rotula está gasto, é um labirinto sem saída que nos conduz ao solipsismo de um ego que se vai cansar no deserto desta terra.
Amemos, em silêncio amemos além do bem e do mal e, como há milhares de anos atrás, que venha a paz na consciência livre, que o silêncio nos escute e nos fale ele das coisas novas que ainda há por descobrir.
É esse o reino da intuição, o reino da mão invisível que guia a consciência boa que procura a verdade como fim último do evoluir da vida.
E porque isto nunca acaba, acabemos com o ruído binário que só divide e exclui e, francamente, já irrita todo o seu correr em roda de hamster como um stress crónico.
Querem que vos diga?
Falta filosofia indiana na nossa sociedade, nas nossas escolas, nas nossas mentes aprisionadas em claustros de sombras sem fim correndo para ficar sempre com mais estrada por correr.
Venha o fim da dualidade como remédio para curar estas sociedades doentes de modas e de sinais dos tempos que se repetem.
Porque para mudar situações que se repetem, só mesmo fazendo diferente até alcançar a harmonia, isso é o sinal de lição aprendida e de ter havido evolução.
O fim da dualidade é esse salto no desconhecido, esse fazer diferente criativo que ultrapassa as noções que se repetem de bem e de mal, de bom e de mau, de claro e de escuro…
Em linguagem numérica isso é ultrapassar o 2 e usar o 3.
O 2 é o binário, constituído por opostos, o 3 é a criatividade que surge após o binário 2, a criatividade é o salto em frente para se alcançar uma solução diferente, ela a sabedoria que se extraiu do binário e criou uma nova, essa é uma solução de salto em frente, e, se for harmoniosa, será o sinal da evolução conseguida e da lição aprendida que saiu do samsara da repetição.
Criar o novo a partir do que se aprende do bem e do mal é a conclusão da noção de progresso, solução que faz com que haja evolução e sentido em frente da marcha da humanidade.
Não repetir os erros da histórias, aprender as lições e criar novas situação graças a essa aprendizagem fundida em sabedoria dá sentido ao ser que evoluiu para o progresso.
Penso estar aí um sentido para a vida.
Lição não aprendida é como na escola, repete-se.
Na vida é igual, lição não aprendida, a situação repete-se.
Como ensinava CG Jung - o que persiste resiste.
A chave para vencer o que em nós resiste está na aceitação.
Take it as it comes!
Aceitar aquilo que nos sucede e construir a partir daí usando o número 3.
Criar um novo rumo, rumo à luz.
Ah, como a filosofia nos pode fazer bem!
Há livros que definitivamente nos podem dar saúde...


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