Não estava a chover.
Saí pela porta e entrou-me pelas narinas o ar frio do Inverno Natalício da cidade.
Pensava em mudar todo o mundo com o pensamento.
Pé após pé, fui fazer uma caminhada até ao Parque, olhando os transeuntes que passam, vendo a vida sucessivamente a passar por sucessivas vitórias e derrotas que se sucedem sem cessar como um vento que nos empurra para a caminhada árdua que dá acesso à grande batalha da vida, aí fui, passando um jardim e olhando o céu fumado em cinzento doce.
Afinal, a nossa sociedade é algo que está pensado para que vivamos nela fazendo rodar as rodas do destino em cada ato de vontade.
E passo a passo lá ia eu pensando que, quando nasci, o céu tinha uma configuração de planetas, lua e estrelas que foi fotografado na sua totalidade quando dei o meu primeiro grito ao nascer.
O ar entrou e ficou impresso no meu primeiro gemer de vida exatamente toda a configuração da roda do meu destino, essa foto tirada do céu quando nasci.
E fui pensando no valor que tem uma mandala destas, o nosso ser em relação com as órbitas dos planetas, os ângulos que estes fizeram entre si ao nascermos que, de certa forma, vai ser o relógio de Saturno para as provas da nossa vida.
Descobri que o universo e nós estamos relacionados, como quem olha para uma montanha e vê ali a paz de um gigante, como quem olha para as estrelas e vê ali um formigueiro a luzir de deuses, o universo, que nos engole e nos dá o cenário para existirmos, nós, o pó que somos ao pó retornaremos…
E fui passando por casas modestas onde as gentes passavam por mim murmurando coisas banais de como está e já viu os jornais, e eu continuei caminho pensando nos deuses que caem quando fazemos asneiras e nos avisam, rapaz, não voltes a faltar ao prometido!, e pensei também nos filmes bons em que contraceno pelos cenários de meus sonhos, onde existe sempre uma mensagem do meu subsconsciente para mim, como uma carta endereçada, que me diz para prestar atenção a algo importante na minha vida, aquilo mesmo que recordei do meu sonho, aquela imagem, aquele sentimento que ali ficou…
E o viandante continuou e continuou, escrevendo com as sapatilhas desportivas no chão marcas de alguém que vive a pensar neste tipo de coisas enquanto o mundo discute os grandes negócios e vê cair e subir civilizações num par de segundos no telejornal. E quando tudo aquilo acaba, fica um silêncio bom na sala de estar, a televisão desligada e posso ser eu outra vez a sonhar com a minha própria vida o que quero fazer exatamente a seguir. Seguir em frente rumo ao cumprir do meu destino enquanto desbravo indo pelo meu mandala dentro o nevoeiro do que sou.
Estas caminhadas pela minha cidade ensinam-se mais do que aulas numa faculdade.
Aqui aprendo sozinho com os sons da natureza aquilo que ela me quer ensinar, em cada olhar, em cada canto de passarinho, em cada voo de pega, no muar de um boi, na cegarrega de uma cigarra, no sol que me entontece de cor, nos carros que passam como ondas do mar a passar, nas caras dos classe média baixa a trabalharem às sete da manhã, plácidos como zimbros ao vento, os seus olhos de quem quer fazer um biscate, Ó Manel, trouxe o cano! e ouvem-se marteladas junto ao vão de escada. Aqui tudo é comunitário, pelo menos o sentir, sente-se bem aqui com os meus conterrâneos dizendo Bom dia e como está.
Sigo caminho para o Parque e uma brisa que passa segreda-me o segredo do gato Mau, o gato egípcio que via na escuridão. Mais à frente, ao ver um cavalo a pastar no campo, vejo o segredo do porte do signo Balança, equilibrado, belo, comedido, garboso, mais à frente uma senhora de avental lembra-me os meus anos de menino onde brincava aos cubos tentando descobrir o seu segredo.
E por ali fora fui, esguio ao vento voraz, chego ao Parque e vejo gente a correr falando em alvoroço.
Moço não posso! O benfica perdeu! O jogador não jogou nada! É um conversar de Marte e de comida picante, de desejo de correr e fazer força ao corpo vestidos de cores amarelas berrantes.
Eu, eu prefiro o secreto som das árvores, o sossego que me transporta para os reinos aéreos onde éolos como adivinhos falam entre os arbustos coisas sérias como: Tens muito que trabalhar hoje, não te esqueças disto e disto, olha ela, o que ela disse… E por entre brisas e o remexer das árvores ali vou passando cheio de orgulho por ser, como toda a gente ali, o filho daquele sol que nasceu naquele Parque, algures seis e meia da manhã e frio nas orelhas.
E sinto-me comum com o Universo e com esta gente, com alguns cães que passam e com as senhoras beatas que vão ali à igreja, e lembro-me das freiras nos Estados Unidos que gastaram milhares de dólares de donativos, que eram para ser dados a crianças necessitadas, e que os queimaram em estados gozosos pelos casinos de Las Vegas… Toca o sino da igreja e toda a corrupção se esvai no dolente toque de bronze que freme todo um novo sonhar!
Porque o espaço que me rodeia faz-me respirar estes momentos como sendo sinais dos tempos ainda por definir, por dar um nome, caminhadas místicas, sim, chamo isto de caminhadas místicas quando o sol nasce lá por detrás das árvores e de repente solta-se de mim uma lágrima de quem viu a beleza da aurora e vibrou, fremindo, o fim, o princípio e tudo o que sinto é o orvalho que ficou disto.
Nestas ocasiões penso que toda a gente é meu irmão, as árvores também, os pássaros, os cães, o sol, tudo é um doce recreio onde emanações se partilham leves no ar da manhã.
E é bom caminhar e pensar, ficamos muito mais nós sem os telemóveis, ficamos como que dentro da nossa caverna caveira a cogitar o mundo, a tornar o pensamento mais profundo, mais nosso, pois tiramos das nossas vivências um saber de experiência feito que nenhum diploma ou livro dá porque este vem sempre connosco para todo o lado e somos nós, os atletas que buscam a luz, em permanente construção…
Dei duas ou três corridas.
Bebi a água da fonte.
Disse olá às meninas.
E a toda a velocidade, fui para casa.
Sabendo que tenho no Parque um ginásio gratuito, harmonioso e silencioso, onde posso ser eu sem pagar.
Ao chegar a casa pensei no grande valor que têm as caminhadas místicas, já o Santo Papa João Paulo II as fazia, dizia-se que por vezes alcançava nelas verdadeiros estados de iluminação com os anjos…Seja como for, não as troco por nada, o pensamento é livre e trabalha-se em nós em momento de sossego e natureza.
A pulchra beleza da Natureza, como um anjo que nos cai e no fala com voz de açúcar.
Olho o céu e dou-lhe um beijo.
Entro em casa e fecho a porta aos acenos do mundo…


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