Li estes versos de Matsuo Bashô e fiquei siderado:
"O coração viajante não se enraíza
Antes quer ser
Braseira ambulante."
Que belos versos!
Fazem-me pensar que, como viajantes da estrada do destino, da nossa Vida, encontramos como resolução do nosso mandala pessoal, aquele que está dentro da grande roda que vai girando, o serviço puro e desinteressado a quem sofre.
Porque todos estamos no caminho, talvez no caminho de sermos melhores do que fomos ontem, talvez no caminho de quem quer lançar boas sementes para amanhã; ao longo desse caminho encontramos muitos amigos, amigas, pessoas conhecidas, pessoas anónimas, amigos e inimigos, o que for, são anjos no nosso caminho, tesouros para descobrirmos, tesouros quando vemos nestas pessoas os vícios de que enfermam, desta forma podemos olhar para nós mesmos e ver, que muitas vezes os defeitos dos outros já os fizemos, então, ao tomarmos consciência disso aprendemos, quer com o bom quer com o mau exemplo; os bons que se imitem, os menos bons que nos sirvam para nos fazer refletir e compreender que não se devem imitar para nós.
E assim vamos na sinfonia da vida, procurando as mais altas vibrações da boa música no melhoramento de nós mesmos enquanto melhoramos o mundo e os outros.
Ser 'braseira ambulante' é poder aquecer de ternura e de amor quem está connosco em qualquer momento do dia, toda a gente precisa de amor, esse nobre fogo onde as almas se aquecem, e esse fogo vem do nosso coração ambulante que trilha o caminho e caminha de cumprir o seu destino; esse coração deve-se entregar todo àquilo que pressente e que sente estar errado em si mesmo. Quando sinto algo de errado dentro de mim, numa situação, num texto que leio e que me faz tocar uma harmonia desagradável e me mostra uma pequena dor, aí sim, aí está o caminho para eu entrar, para eu procurar o porquê até fazer entrar a luz derramada pelo amor do coração, é essa fraqueza, é esse dragão que devo vencer para ser como S. Jorge, vitorioso herói de mim mesmo.
'O coração viajante não se enraíza', isto remete-nos para o querer fazer a viagem perpétua no comboio de Si pelo mundo fora, explorando-o, conhecendo-o a fundo, maravilhando-se, surpreendendo-se com o encanto daquilo que ainda não se conhece. E o coração não se enraíza, não se prende a nada pois Aquilo que eu aceito me liberta e aquilo que não aceito me submete.". Então, o viajante, é um coração livre, que faz o seu caminho sendo um calor para os que se juntam ao caminho, pois é nesse calor que a chama do amor se nutre e cresce, faz constelações, laços que se vão fortalecendo como nós kármicos bons e maus.
Quem nos rodeia aparece à nossa órbita por similitudes de vícios ou por similitudes de virtudes, aprendemos mais as virtudes dessas pessoas e esqueçamos os vícios com paciência, nelas e em nós, no perdão e no compreensão, vendo o bem em todas coisas.
A viagem da vida leva-nos exatamente ao que precisamos de saber, pois todos os dias todas as coisas estão dispostas para que aprendamos valiosas lições de crescimento interior, é esse o único que se aproveita quando à noite nos deitamos e vemos o dia ir como um vento para o esquecimento do passado.
Aposto que o cenário que me colocarem para amanhã eu viver foi feito por anjos que querem que eu evolua.
Se eu não aprender a lição, ela vai-se repetir, como na escola, se eu aprender, alivio o peso nos meus ombros e estou apto a seguir caminho confiante semeando pelos campos da vida o que sou, os meus gestos, palavras, atos.
Espremida a laranja da vida, fica o sumo da sabedoria, fica o que realmente permitiu o nossa evolução de um dia para o outro.
A grande questão é: Fui melhor hoje do que fui ontem?
Não me interessa se é alguém a dizer-me isso, se me quer ensinar ou doutrinar, isso será sempre a sua relativa opinião.
Mas o que interessa realmente é se eu me venci o suficiente a mim mesmo para ser melhor do que fui ontem, esse meus amigos, penso ser o sentido da vida, o ir mais além de nós mesmos. Vencendo-nos a nós mesmos obtemos mais glória do que vencendo mil inimigos porque o que interessa é eu em que habito, e eu levo-me para todo o lado, e esse que levo, se for mais leve e melhor, já me faz ter um melhor caracter, o que depois me faz fazer ter um melhor destino, pois, caro viajante como eu, carácter é destino, e ao lapidarmos a escultura do que somos, o nosso caracter, obtemos uma joia única, trabalhada com muita dureza porque é polida, e aí estamos nós, únicos, pedras rolantes destino fora até se cumprir o mandala interior ao qual se entra sempre e através da descoberta de si mesmo.
Viajante, descobre-te a ti mesmo e encontrarás em ti o coração em chamas que ama e que serve, que é humilde, sábio e prudente, que quer ser o maior por ser o menor, que quer ser exaltado porque é humilhado, que não julga para não ser julgado, que se apura pelo saber de experiência feito, que se rege pelo seu carácter forte, que nunca cede ao elogio ou à crítica, que se mantém o mesmo, mesmo diante de grandes e pequenos, que caminha já por cima das águas do lodo e recebe a luz direta do sol amigo e irmão; esse homem é poeta pois descobriu que a palavra é sagrada e que esta recria a sabedoria que em pouco diz muito, que fala melhor quando pode melhorar o silêncio, que cala, escuta e ouve, manso como uma pomba, prudente como uma serpente, para tudo, de repente, se descobrir como se fossemos os viajantes que somos que procuram o despertar. O despertar acontece quando cada um de nós torna o inconsciente consciente até realmente perceber de que é feito o destino, e o destino é um barco a navegar no mar com os ventos do deuses a agraciar ou a dificultar a navegação, mas isso nunca tira a responsabilidade e o uso da vontade livre de quem vai ao leme, cada um de nós, viajantes de coração ambulante em busca permanente da ilha distante.
Boa viagem companheiros e companheiras de estrada!


Comentários
Enviar um comentário