A Man In The Crowd - 23-12-2018
Ao caminhar pelas ruas da cidade, algo que faço muito, talvez imitando o personagem do conto de Edgar Allan Poe, em "A man in the crowd", escrito em 1850 e terrivelmente atual, sinto que este século XXI é o tempo, sem dúvida, do 'flaneur'.
O que é um 'flaneur'?
Deixo-vos a noção aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Flâneur
'Flaneur' é o personagem tipo do século XXI.
É o 'voyeur' da vida, é o que vê tudo no cenário da cidade, o que vê TV com os olhos enquanto caminha, o que olha o telemóvel enquanto caminha ou conduz, o que vai ao cinema ver a magia ilusória, o que vai atrás dos anúncios políticos, o que vai atrás das iscas lançadas pelo marketing, o que vai atrás dos novos templos de Vénus que são os centros comerciais, o que vai atrás do filão do mercado do futebol, o que se mete em filas de trânsito para ver o já visto, o que entra nos sítios de grandes multidões só porque é 'cool'...
E lá fica a olhar…
Esse é o 'flaneur' do século XXI, o novo herói errante com a mente a piscar luzinhas de excesso de informação e de semáforos de aprovação e reprovação social.
É um ser um pouco diferente do herói de Edgar Allan Poe que circulava pela cidade maravilhado com as montras e as meninas bonitas, em busca de satisfação para os seus apetites de descoberta contínua da vida, por tentativa e erro constante, vendo, experimentando, absorvendo tudo de todas as maneiras.
É que nessa ânsia de querer ver, de ter curiosidade em buscar a novidade, a moda do momento, o glamour e a satisfação dos apetites, o 'flaneur' tornou-se uma cigarra, uma cigarra anódina no meio da urbe, enquanto milhares de formigas trabalham incansavelmente desejando apenas o sustento, o pagamento das suas contas, o fim do dia para se deitarem na cama e desfalecerem, depois de horas de absurdo cansaço produtivo.
O personagem que desenho hoje, e para o futuro, é o da cigarra sem apetite pela vida, o 'flaneur' inútil, perdido nos bites da internet, mudo porque ninguém o ouve, só, só porque tem mil amigos no Facebook.
O 'flaneur' do século XXI estuda muito, faz muitas atividades, vai e vem e faz coisas, cansa-se de saber tantas coisas que depois já ninguém se lembra, nem ele, e continua a sua romaria pela vida, a ver montras, a ver os feeds dos outros, a olhar mil luzinhas no telemóvel, a ficar encantado com os gadgets, os 'espelhinhos' novos recentemente fabricados com obsolescência programada, e deixando passar o que realmente interessa da vida, o trabalho útil ao próximo e a busca autêntica pela sabedoria.
De tanto ver e viver coisinhas inúteis, o 'flaneur' do século XXI, vai queimando a vida como uma vela que se vai desgastando, os dias vão passando, passa o sol e as luas continuamente, e se lhe perguntarem:
"Ó Antunes, mas afinal o que é tu fazes nesta empresa?"
O Antunes não sabe.
E se lhe perguntarem:
"Ó Antunes, mas afinal qual é o sentido da tua vida?"
O Antunes abana a cabeça e diz não compreender.
O Antunes anda pelas ruas destas cidades, algures anónimo e classe cabeça baixa, encontra-se no meio do povo olhando a TV nos cafés, passeando o seu carro para colocar sempre mais combustível, indo à praia como todos ao Domingo, murmurando coisas enquanto ouve alguém a chutar latas na rua.
O Antunes gastou muitos anos disto e agora pergunta, quando olha de cima de um mirante junto a uma montanha qualquer no interior:
"Mas afinal, de onde venho, onde estou e para onde vou?"
E o vento nada lhe diz.
Passa apenas um vazio na alma…
Olho para as pessoas pelas quais passo, enquanto dou os meus passeios a pé, e por vezes vejo o Antunes, vazio como um golem sem desejo, dizendo banalidades que o vento leva, gastando o seu tempo como uma vela a queimar-se lenta bruxuleando trémula no eterno.
O 'flaneur' do século XXI é um personagem que criei e que muitas vezes encontro, ele erra pelas ruas e passa no seu carro veloz, vai rápido todos os dias atrás do nada, suando e trabalhando para ir para a sua cova pouco profunda algum tempo depois, levado pela brisa do tempo ficando apenas gota de orvalho.
Essa gota de orvalho é uma lágrima que choro pelo 'flaneur' do século XXI, que pode estar por todo o lado, em muitas caras, em muitos países, em muitas acompanhadas solidões.
Ao caminhar pelas ruas da cidade, ouço um vento frio que me vai dizendo:
"É tempo de acordar! Enquanto vês tudo a seguir uma direção única, procura ter em ti os quatro pontos cardeais. O mundo é mais do que o Antunes vê…"
O século XXI, sendo um século de muitas mudanças, de muita tecnologia e de muito conforto, ainda é primitivo nas mudanças, na tecnologia, no conforto do interior de cada um de nós.
O Antunes ainda está amarrado na caverna de Platão, a sonhar com os fogos dos desfiles dos mestres, amarrado, olhando apenas para sombras.
O 'flaneur' verdadeiro precisa de sair da caverna e de ver o sol, que se calhar não está lá fora mas sim no seu próprio interior.
E fui pensando estas coisas enquanto entardecia.
E fui emudecendo com o espanto do sol por…


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