28-12-2018
Super autoestradas da informação
Acerca de um artigo de José Pacheco Pereira "O ruído do mundo", in Público, 24 de Novembro de 2018
Lendo um artigo deste autor, pude constatar que nesta era de superinformação à escala global, existem graves defeitos naquilo a que podemos chamar a grande teia, a World Wide Web.
Anos de análise e de experiência junto de computadores, sites, e webs fizeram-me pensar, como fazem pensar muita gente, acerca de algumas ideias que gostaria de deixar aqui escritas.
Ao navegar pela net, ao trocar experiências, ao analisar e pesar tudo, podemos chegar à conclusão de que a atual abundância de fontes noticiosas e a facilidade de acesso permanente à informação, muitas vezes apresentada de forma não diferenciada como entretenimento, em alta velocidade e disponível vinte e quatro horas por dia, em vez de informar melhor as pessoas contribui para que elas fiquem mais confusas e distraídas do que se passa à sua volta.
Veja-se o fenómeno das 'fake news', dos 'nerds', dos 'millenials', das terapias novas resultantes da falta de net ou de telemóvel nos jovens, do autismo da comunicação interfamiliar quando em presença de excessos de tecnologias, da timidez e falta de emoções expressivas nas relações resultantes do ensimesmamento tecnológico, do fenómeno dos couch potatoes fonte de sedentarismos e comportamentos não saudáveis física, socio e psicologicamente.
Procura-se no Doutor Google tudo, no entanto, é por vezes difícil avaliar a relevância, a autoridade e a exatidão da informação recolhida.
Como sabemos, a primeira página do Google é de longe a mais vista em todo o mundo e não as milhares ou milhões de páginas seguintes, o que origina que o modo de leitura na recolha de informações na Internet seja, na maior parte das vezes, superficial, rápida e limitada aos títulos e sinopses, o que contraria em muito o modo de ler com o são intuito de aprender.
Buscar informação desta forma e massivamente desenvolve um efeito estupidificador dos internautas, muitas vezes vítimas da mercantilização do ensino, que vê o aluno como um simples cliente que é preciso satisfazer.
Olhando de longe sobre estes factos podemos dizer que os monopólios tecnológicos parecem querer orientar as pessoas no sentido que lhes é conveniente, chegando muitas vezes a transformar os cibernautas em verdadeiros ciborgues. Existe quase um filosofia 'nerd' que tenta fundir o homem com a máquina.
Esta alta tecnologia é muitas vezes uma fonte de desinformação que torna difícil aos utilizadores destrinçar factos e ficções, e faz, a um nível psíquico com que a sensibilidade humana esteja a ser tecida pela tecnologia que muitas vezes serve como instrumento de controlo social, como podemos verificar pelas subtilezas do dia a dia.
A braços com tanta propaganda, informação e desinformação, a economia, a indústria, a política procura controlar através do audiovisual e do digital os tempos de consciência e de inconsciência, o espírito e o corpo, desenvolvendo-se até, em algumas escolas, o conceito de 'lifetime value', isto é, o valor economicamente calculável do tempo de vida do consumidor.
É necessária uma profunda reflexão sobre como neutralizar a ação dos grandes manipuladores das verdades funcionais.
No dizer de Francis Bacon "quem detém o conhecimento detém o poder", mas como bem nos ensina a história de Babel, corremos o risco de estar a construir uma teia em forma de torre que nos faz falar diferentes línguas, desinformadas a maior parte, onde ninguém se entende, criando cada vez mais artificialidades e confusões, futilidades e quinquilharias de informação que nos distraem do caminho e nos colocam, como a muitas crianças já em muitos países, num déficit de atenção tal que nem por trinta segundos podemos focar a nossa atenção num único ponto…
Chegados a este estado de coisas, como se pode sequer tomar qualquer tipo de decisão avisada, prudente e segura se até nos vendem como panaceia a crença de que tudo é instável, não seguro, e dependente do chamado 'fator acaso'?
Esta incerteza, esta dúvida constante, gera sem sombra de dúvida uma falta de fé e crença em nós mesmos, parece por vezes que estamos sempre à procura de um oásis que depois nos escapa neste deserto de ideias válidas, estáveis e duradouras.
Temo pelo futuro dominado pelo pensamento máquina, pela mecanização absurda das pessoas, pela robotização dos seres humanos transformados em homens máquina que servem máquinas que servem homens máquina.
Ainda sou do tempo da partilha sadia das emoções, de ideais que de forma saudável podem ser por todos construídos, alicerçados em pontos de referência estáveis como por exemplo os pensadores das tradições clássicas.
Não acredito neste estado de coisas onde o homem é o lobo do homem, onde a politica é um jogo de lutar ou morrer, onde tudo parece uma arena, uma guerra da sobrevivência do mais apto e do mais forte.
Acredito sim que o mais forte, em qualquer situação, só o é quando de facto abdica da sua força e mestria para ajudar o mais fraco a ser mais forte.
A astúcia e o luta pelo poder são coisas que a história já provou serem nefastas para o desenvolvimento do todo da massa humana.
A tónica não deve ser a competição, mas sim a partilha, o servir, a entreajuda e o comunitarismo respeitador dos direitos individuais.
A árvore do conhecimento muitas vezes pode produzir frutos maus se as suas sementes não forem partilhadas sadiamente, com o intuito de construir algo melhor do que cada um é em si mesmo.
Façamos das máquinas um aliado e não um meio para o prolongamento da maldade humana.
Essa virá a ter os seus frutos no futuro consoante as suas primeiras intenções.
Que se alicerce na cultura o futuro, que se promova a distrinça construtiva, contínua e sadia entre o Bem o Mal, esse deve ser o caminho de cada um nesta sociedade cada vez mais complexa e confusa onde até a reflexão e o silêncio parece ser algo desusado por simplesmente não haver tempo para tal.
Não, eu não quero que pensem por mim por favor!
Temos todos o direito de construir o nosso próprio filme de vida, de não acabarmos algures num vazio sendo meros figurantes do filme de outros.


Comentários
Enviar um comentário