19-11-2018

Nestes dias fui verificando uma corrida ao jornalismo sensacionalista como nunca antes se viu em Portugal.
Parece que as pessoas querem sensações rápidas, saber pormenores escabrosos ao minuto, tudo mastigado e comentado e embalado como um bigmac informativo.
A conta pagam todos às operadoras de cabo no fim, depois de milhares de zappings furiosos em busca de um canal que dê o que as pessoas mais querem, sensações e mais sensações, orgias e orgias de informações e imagens e críticas e opiniões e futebol, para depois as pessoas acordarem de manhã e já não se lembrarem de nada, como os feeds e mais feeds do Facebook que se arrastam com o dedo e, com uma infinita paciência, lá vamos vendo os sorrisos dos outros e fazendo likes, cada vez mais conscientes da nossa solidão nesta imensa selva de betão.
Nunca se viu tanta gente ligada e tanta gente só, gente cada vez mais distraída com nadas mentais internáuticos, frivolidades e excesso de informação. Parece que agora prestamos culto ao deus Neptuno, o deus das ilusões, das sensações líquidas, do parece que é real mas que depois não é...
Que pena ó cidadão Narciso!
Deram-te tanta tecnologia e tanto conforto e só te olhas ao espelho vendo nadas e fragmentos de ti mesmo.
Urge romper com este estado de coisas e fazer algo de realmente útil pelas pessoas.
Isto de passear vaidades e ver passar feiras de vaidades para entreter as sensações pueris é coisa de uma sociedade fútil, sem uma direção definida.
Parecemos cataventos desgovernados nestes tempos sem objetividade e rumo.
Um dia isto, outro dia aquilo…
A pessoa que se quer superior deve olhar para o distante, para o que há de vir, caso contrário o próprio instante irá trazer-lhe dissabores.
Parecemos tarefeiros da vida em vez de donos conscientes dela com tanta informação inútil feita para podermos voar com a nossa imaginação pop.
O tempo que já perdi a aturar publicidade, comentários inócuos, programas sem sabor ou cheiro, glamours da Titi para a tia ver, programas desenhados para eu servir de voyeur passivo, carregados de marketing, maquiagem, vaidades e ilusão líquida...
Eh pá, levem-me para lá o Trump e os recados da diplomacia americana.
Também não quero mais sandes de futebol com sabor a guiões tendenciosos, isto em cinco canais seguidos à mesma hora, por favor, mastigam-me a paciência tanto doutor do futebolês e tanto lobby que sustenta o mercado do futebol.
Novelas com recados políticos também só servem para entreter os serões chiclete a ver nadas, dramas feitos por guionistas mal pagos e caras esguias a inspirar e a expirar.
Enquanto a democracia se nivelar por baixo a nível mediático vai ser difícil haver um real desenvolvimento mental dos portugueses.
Ainda bem que temos o monopólio da Google a dar-nos o youtube com os nossos canais privados onde podemos ir espreitar o que quisermos, isto enquanto não se paga, pois temo pelo futuro da net para ricos e para pobres como já querem fazer nos Estados Unidos da América.
Isso é tudo muito bonito e tem ecrãs, cada vez mais passamos tempo à frente deles, mas prefiro uma boa biblioteca em casa e ler ao som da lareira em noites de chuva.
E que vão para o diabo as audiências e as críticas funestas no Facebook, as multidões inebriadas nunca apontam o caminho certo...
Esse caminho certo é sem dúvida individual, macerado com trabalhos e pesquisas da experiência e da busca de si mesmo.
Isso é algo que nenhum canal sensacionalista nos dá.
É a vida que não passa na TV.
Nem os tweets do Trump me podem tirar do meu sossego quando posso por mim mesmo escolher o que quero ver sem ser ensanduichado, embalado e consumido com a lógica do mercado mesmo à minha frente, na minha televisão da sala.
Ganhem juízo todos os que buscam as sensações rápidas.
O tempo passará bem fútil para vocês…
Vocês irão chegar a um momento da vida em que olharão para trás e verão grande parte do vosso caminho feito de tempo gasto inutilmente a olhar para o que a TV pensou e programou para vocês.
Quando não temos planos para a vida alguém a planeia por nós.
Acabamos dentro de uma gigantesca teia do consumo e de um voyeurismo líquido enquanto achamso que somos os donos do mundo com o comando de TV na mão.
Temo pelos idosos sem livros por perto.
Temo pelos couch potatoes deste país ganhando raízes e barriga de cerveja.
E parecemos todos incautos quando nem sequer nos apercebemos que há todo um novo mercado de notícias falsas e de opiniões de serpentes que está agora a começar.
Vejam todos os lobos com pele de ovelha que perpassam nos ecrãs a influenciar.
O que mais me incomoda é o próprio critério de notícia que é escolhida para servir de ementa do dia para engordar alguns.
Porque é que algumas notícias são notícia?
Quem as pagou para ali estarem?
Quem as encomendou para que eu passasse os olhos e o meu precioso tempo de alma nelas?
Se querem o choque do real, porque não fazem diretos em tabernas a revelarem os comentários avisados do Zé do Pipo com o seu copo de vinho na mão a falar e a remoer a estranha história do Benfica e das toupeiras amestradas?
Se querem etnografia e realidade, ide à raiz do povo, conheçam o povo por dentro.
Aprende-se mais com as pessoas reais do que com muitos vencedores da História.
Ir ao que interessa, às pessoas e à democracia real é bem diferente do senhor editor engravatado politizado e encomendado que escolhe o que deve ser dito para milhões de pessoas.
Já que tanto gozo têm todos nos reality shows, mostrem o povo real, a fazer democracia direta, puro e duro, a dizer as verdades da realidade dura, desamparada, que não passa nos sorrisos dos anúncios publicitários, que não tem dinheiro para ver os canais de cabo e pagar rendas a ver os jogos comprados de futebol…
Lembrem-se desses nos vossos reality shows encenados para as audiências!
Verão que quanto mais tentam controlar e domesticar a vox populi mais ela resiste sob diferentes formas.
Desde que as coisas não acabem em linchamentos de Idade Média tudo bem, para isso bastam certos comentários no Facebook onde só falta incendiarem pessoas vivas como faziam na Inquisição.
Talvez tudo seja parte um grande e eterno ciclo que se vai repetindo e evoluindo como as órbitas elípticas dos planetas.
Estamos tão evoluídos em maquinaria e tão pouco evoluídos em civilização interior…
Sob o cenário do século XXI ainda vemos cenas oriundas do tempo dos primatas.
A macacada agora chama-se jornalismo sensação, com efeitos tão alucinatórios como um mau whisky.
A falta que faz um Vasco Granja para entreter a malta com desenhos animados como 'A Revolta dos Porcos'…
Falta a grande literatura tornada mito nos ecrãs.
Os grandes sonhos humanos deveriam de ser discutidos, a cultura deveria ser disseminada todos os dias e não só em horários de horror madrugada dentro.
Assim educamos robots sensação.
Temo pelas crianças que são educadas a olhar para a TV em vez de terem pais responsáveis que lhes deem livros.
A raiz da educação é amarga mas os seus frutos são doces, já dizia Aristóteles.
Para as crianças de hoje a inocência é uma coisa estranha, elas brincam com máquinas e jogos de computador que as treinarão para empregos futuros onde serão máquinas servindo máquinas que servem homens máquina.
Tudo cyborg e híbrido como as sexualidades.
Estranhos tempos estes.
Da volúpia das sensações rápidas e dos julgamentos sumários em programas amigáveis.
Tudo o resto é ruído.
Pouso o comando da televisão.
E fico-me com o doce som da chuva num Sábado à noite.
Estou lendo aqui para vocês um livro chamado 'Ganhem Juízo'.

Sic Transit Gloria Mundi - Assim desfilam as glórias do mundo.

Yours faithfully

Marco Oliveira



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