Texto sobre Política - por Marco António Oliveira
De repente, acordando de um sonho, veio-me ao pensamento a ideia de um novo ideal político...
Ocorrem estas coisas por vezes ao tomarmos um café, quando vemos desertos, quando estamos no meio de desertos de ideias sem um único oásis que apareça que não seja algo já embalado, algo já falado, encenado, debatido até à exaustão, filmado para o direto insólito da TV cheio de make up e poses urgentes para que haja audiência.
Vai ser aqui algo de muito resumido, isto pouco trabalhado ainda está, mas servirá para dar uma pequena achega do que sonhei esta madrugada.
Apareceu primeiro, como num esboço cheio de riscos oníricos, o principio da regra de ouro cristã:
Faz aos outros aquilo que queres que te façam a ti...
E fui desenvolvendo isto, refletindo isto em projeto humano para a Pólis...
Segue-se mais uma utopia à português...
Assim, fui meditando o seguinte, se fizermos ao outro o melhor que pudermos, pois isso é o que gostaríamos que nos fizessem, então, e de certa forma, se fizermos evoluir o Outro, o próximo, no sentido de uma maior Humanidade, de um maior Conforto Emocional e Material, de lhe fornecer Mais Opções Reais de Vida no sentido de lhe dar mais Saber, sem dogmas ou imposições, e continuar a fomentar nele o desejo de querer explorar o mundo para saber melhor ser melhor, no fundo, com calma vamos dando uma cana de pesca ao próximo para que este possa pescar autonomamente, então nós, cada um de nós, para além de recebermos uma enorme gratificação interior ao proporcionar isso ao Outro, estamos a receber, inevitavelmente, um reconhecimento do outro no sentido de sermos úteis para a sua evolução, o que nos fortalece com uma mensagem bem positiva.
O Outro passa a então a reconhecer-nos, passamos a ser válidos, poderosos (porque, e segundo Platão, quem tem conhecimento tem poder), passamos a ser sábios, amorosos, humanos, solidários, quando queremos de facto, e sem haver interesse pelo meio, fazer evoluir o outro e a comunidade, quando isto acontece, e o seu desejo é tanto, tanto, que acontece algo pelo caminho, pois, inevitavelmente, também nós estamos a evoluir no mesmo sentido.
É como na cena em que o mestre lava os pés do discípulo para que este continue a jornada pelo bem, o justo, o belo, o bom.
Ser bom é isso, um continuo ensinar, fazer, cuidar para o melhor e para o bem do que está mais necessitado.
É uma transferência de poder que se estabelece entre o mais forte e o mais fraco no sentido da igualdade desinteressada, no sentido de dizer: Eh pá, cresce comigo também, estamos todos aqui para isso...
É como quem partilha na net coisas para os outros crescerem intelectualmente, moralmente, eticamente, emocionalmente, fisicamente, materialmente, assim, tipo cultura nerd altruísta, sem esperar nada em troca a não ser o justo mérito e o justo reconhecimento de que sabe mais alguma coisa... Estas ideias que tive partem do mesmo princípio: melhorar quem está menos evoluído fazendo-o em atos contínuos de dar, de dar ao outro aquilo que queríamos ter nós próprios, em pensamentos, palavras, atos, em coisas materiais até...
Esta é uma cultura que discretamente está a acontecer nas redes, na net, as pessoas partilham coisas despreocupadamente no intuito de seguirem a filosofia do golfinho, o golfinho que brilha em acrobacias quando lhe é dado um peixe e quando o peixe não lhe é dado, faz uma acrobacia ainda melhor, o que depois origina a que passe a receber ainda mais peixe...
É disto que eu falo.
Já se está farto da cultura da carpa, a carpa é um peixe que sabe já que vai perder e acaba por perder mesmo, comida pelos peixes maiores.
Também temos a cultura do tubarão, que impera por aí, e que também é sobejamente conhecida, o tubarão navega nas águas pensando: quem vou comer pelo caminho? O tubarão não olha minimamente aos estragos que vai fazendo no mar onde convivem milhões de peixes diferentes...
Tubarões, na política, há muitos... Carpas, no povo, por todo o lado...
Mas o golfinho...
Esse é o que tem algo de novo a dizer nestes novos mares que vão se descobrindo com o avanço contínuo da técnica, do conhecimento, da democracia.
O desnível que assistimos entre o crescendo da técnica e o nível ético, moral, é o grande problema deste século.
Com certeza que temos a tecnologia do nosso lado, mas se calhar ela só tornou mais complexa o exercício da rapina, da corrupção, da ganância, que já existia desmesuradamente antes, e que agora, apenas, se vai tornando mais subtil, mais clic e inócua, embora apareçam marcas dela todos os dias nos media como exemplo deste zeitgeist ao longo destes dias sob o sol.
Transportando o ideal do golfinho para a política...
Politicamente, os atos deveriam ser efetuados sempre no sentido de fazer evoluir a comunidade, cada vez mais, tendo em conta cada cidadão em particular, dirigindo-se politicas digamos que personalizadas, ajustadas às necessidades de cada um, localmente, regionalmente, nacionalmente, descentralizando e concentrando-se nas necessidades únicas de cada pessoa, como se de através de emails personalizados se tratassem as soluções atempadas para cada caso; pois, o outro não é uma massa sem forma para cumprir estatísticas, é um ser único como uma impressão digital, é uma voz, é um ser que sozinho não se arquiteta a si mesmo, como dizem por aí, até porque quando nasceu já as coisas estavam arquitetadas antes, mas vai, por si e pelos outros, contribuindo com a sua vivência para que se arquitete um todo melhor, sendo ele uma voz ativa na construção do formigueiro, pois contribui para ele não só materialmente mas também com o seu empenho, com a sua existência, com o serviço que presta a outros, nem que indiretamente como alguém que compra o trabalho dos outros, que paga os seus impostos, que respira o mesmo ar, que sofre e goza as vivências de ser cidadão, não como um arquiteto sozinho do seu destino embora também o possa ser, tornar-se-á então num individualista com tendências para solipsismos de Narciso... Se fosse arquiteto de si mesmo então cada ser isolar-se-ia do seu meio e viveria num alheamento face aos problemas e soluções que os outros apresentam vivendo só as suas emoções de Wall Street...
E tudo conta, e tudo passa...
Então, continuando, passar-se-ia das políticas locais de massa, para as politicas locais orientadas para a evolução de cada caso particular, de cada individuo, melhorando-o a todos os níveis, tornando-o cada vez mais consciente de si próprio nas suas múltiplas vertentes do desenvolvimento humano e social.
O politico, assim, raciocinando livremente, não depende de fatores como o poder, a fama, o ego, a pompa, depende simplesmente de um conceito simples intitulado SERVIÇO.
Querer ter sucesso não faz um homem ser grande.
Querer ter fama, poder, honra, luxos faz a pessoa perder a claridade moral para decidir em prol do bem comum.
Assim o político não passa o teste do espelho, fica a ver o apenas o seu reflexo...
É antes a obra que deixa, as coisas reais que ficaram do seu rasto, os frutos que deixa ao longo do caminho para que os outros disfrutem que mostram realmente a árvore que o homem político é...
Pois o que vemos na maior parte dos casos, e em bom português se pode dizer, é a imagem nítida do "muita parra e pouca uva"...
Demagogias, o forjar de mitos, aproveitamentos de situação fazem-nos lembrar outro dito português: " A ocasião faz o ladrão" ou, quando se vê alguma obra feita, vem por vezes outra máxima que confirma o "depois de casa roubada coloca trancas na porta".
Assiste-se a uma política do remediar, do tapar buracos com remendos, do "vamos indo e vamos vendo" sem haver pensamento estratégico orientado num progresso evolutivo, num inspirar da própria Natureza que de estação em estação vai passando, de moda em moda vai passando, mas que ciclicamente se renova para melhor, para níveis de maturidade conquistados muitas vezes à custa de muita dor, de tentativa e erro, de experiência, de lições aprendidas do passado, de atos de heroico falhanço, de atos de heroico momentâneo triunfo, pois tudo vai renascendo, transformando, seguindo o preceito camoniano de "mudam-se os tempos mudam-se as vontades".
Sim, os políticos fazem ruídos de estarem ocupados, como dizia Lou Reed, mas estarão de facto ocupados a ver para onde vai o barco nestes mares do incerto?
Qual o intuito de servir? Não é o de fazer melhor do que o que está?
O serviço desinteressado ao outro para o fazer evoluir faz o homem ser grande porque este serviço o torna o mais pequeno de todos.
Que chatice querer ser o figurão, o capa de jornal, o man spotlight, o herói facebookiano que só quer aparecer para se mostrar...
Citando Shakespeare: Vaidade das Vaidades, tudo é vaidade...
E depois da encenação no teatro a cortina fecha-se e a vida continua.
E o que ficou do rugir das feras políticas depois de desligada a televisão, depois de sair do comício, de ver as portas a bater dos carros à entrada dos grandes edifícios e do ajeitar das gravatas e do fato italiano? Qual foi a crença genuína que realmente ficou depois de tanto vozear, depois deste ruído todo?
Ficou apenas o rasto destas pessoas todas traduzido em obras, na real satisfação das pessoas, nas memórias de experiências boas deixadas pela sua intervenção, no bem que se pode partilhar na alegria genuína das pessoas, no viver sem medo orgulhoso por ainda haverem exemplos dignos de serem referenciados e imitados.
Temos isso hoje?
É a questão que deixo.
Só isso fica.
A obra feita.
A memória viva da obra feita.
Que se mostre obra feita e que o maior de todos seja o menor de todos agindo em humildade....
Pois só com humildade se aprende e o maior de todos sabe que no fundo não sabe nada e que sempre terá de aprender...
Até os mais doutos.
Douta ignorância.
Podem-se ter doutoramentos e falarem cada um sete línguas mas se o político não souber dizer bom dia e sorrir para as pessoas para que lhe serve a douta inteligência?
Pode ter os contactos e a capacidade de retórica para fazer os outros acreditar mas quando isso é usado para beneficio próprio, para tirar do bem comum em beneficio de si mesmo e dos seus, isso é nada vezes nada, é ruído, mais uma vez, é muita parra e pouca uva, como diziam os antigos.
Assim o político teria descanso e seria de facto reconhecido com deveria de ser sendo apenas mais um agente de mudança positiva para o mundo, sendo apenas mais um que deixou o mundo um pouco melhor do que o que estava, apenas mais um, como toda a gente do mundo é mais um e pode ser um fator de mudança nas suas próprias vidas, nas vidas dos outros e na sociedade, sendo apenas mais um.
Independentemente da importância do seu papel e mesmo sendo inconsciente disso, cada um pode mudar para melhor o mundo, deixá-lo melhor do que o que está, mudando-se a si mesmo, querendo ser melhor, aprendendo a dominar o vasto mundo começando com a mais doce das guerras, a guerra pelo domínio de si mesmo. Todas as outras guerras são inúteis...
Atos de benevolência, o serviço desinteressado, o amor ao próximo, a ajuda benigna no sentido de fazer crescer, isso faz também uma mãe e uma mãe não precisa de ir a votos nem de aparecer no jornal, ela é assim, como a Natureza é assim, ela dá para fazer melhor, ela recebe o que já é dela, de facto, a mãe já recebeu o seu pagamento só em ser assim... E se for reconhecida como tal, fica na memória do seu filho como uma excelente mãe.
E essa memória dura uma vida inteira, às vezes gerações inteiras... E ela fora só isso, uma boa mãe.
Assim deveria de ser um político, o que reconhecidamente ficou na memória das pessoas, pois foi e esforçou-se por ser um genuíno agente da Natureza que fez renascer Primaveras e ultrapassou duros Invernos, e lá foi melhorando as coisas e a si mesmo, de estação em estação, de moda em moda, com o correr dos anos, dos espaços, das cenas e dos ambientes em redor.
Ficaram gestos de amor?
Ficaram gestos verdadeiros, justos, de bem, procurando unir, abraçando as diferenças e tornando possível sonhos de futuro, deixou espaço para a própria Natureza agir nas coisas?
A ação politica que faz realmente a diferença, fui pensando, é a do serviço genuíno ao próximo no sentido de por todos os meios lhe proporcionar o melhor desenvolvimento evolutivo possível.
É ser uma força da Natureza colaborando e aprendendo com a Natureza.
Desta forma também o político crescerá mais como ser humano e, mediante o melhor serviço prestado, e como se usa agora em moda em muitos meios comerciais, melhor será o seu prestígio e o seu reconhecido mérito, muitas vezes sem precisar de sondagens de opinião...
O que é bom sabe-se à distância, muitas vezes nem é preciso aparecer para se ver a presença de um líder.
E tal como numa boa casa comercial que imita a filosofia da formiga e do golfinho, o político ganha boa fama.
Assim, o melhor político é o que serve melhor, assim como na função pública, o melhor funcionário é o que cumpre mais objetivos de produtividade e o que satisfaz melhor as necessidades do cliente deixando-o a sorrir no fim, dando-lhe uma boa experiência de performance profissional.
Se os objetivos políticos forem medidos pela satisfação das pessoas e pela constatação da real ajuda a estas proporcionados pelo poder, ajudas no seu processo de evolução mental, emocional, física, material, humana, tendo os cidadãos sempre em conta como seres humanos que são, dignos e dignos de terem políticos que os dignifiquem, assim, naturalmente caminhamos para uma Política melhor, que evoluiu e que soube estar e acompanhar estes novos tempos de revoluções tecnológicas e ideológicas.
A pena é que se evoluiu tanto tecnicamente que, moralmente e eticamente, não se criaram ainda algoritmos à altura...
Esquerda e Direita tornaram-se metanarrrativas digeríveis em simples oposições binárias, de posição, de situação, de remedeio, estruturando coisas e números sem ter por fim quem de facto originou essas coisas e os números, o ser humano, em toda as sua identidade e diversidade.
Ser político é servir quem mais precisa, é fazer descer o raio de luz do forte para o mais fraco.
Isso é cuidar da Pólis, do que é de todos e não é de ninguém, é acompanhar a marcha do homem pelo tempo em vários lugares, com várias caras, papeis, com direitos e deveres (também estes evoluíram ao longo do tempo).
Mas em que sentido tudo isto evoluiu? Podemos perguntar...
No sentido da melhoria, da expansão, da humanidade, do querer estar melhor e querer ser melhor, do proporcionar melhores condições para as gerações vindouras...
Isso preocupa uma mãe.
Não deveria isso preocupar um politico?
Das conversas e dos confrontos competitivos do poder ficam as vozes e não as nozes. E os "Nózes" somos nós todos. Não fomos feitos para ouvir e acreditar em palavras mas sim fomos feitos para vermos traduzidos em matéria os pensamentos que estão acima das palavras, esses sim são mais reais, estão nus e são mais verdadeiros do que as máscaras do momento e da vaidade pavoneadas em teatros de lobos pelas feras do momento.
Encontramos ainda a corrupção, o abuso do poder, as guerras, várias formas de censura, lobbies que desvirtuam o poder político que deve ser usado sempre em beneficio das pessoas e não ser usado para fins próprios.
Essa deveria ser outra regra do exercício do poder político, talvez um dia esta regra seja inscrita numa Universidade feita só para políticos, onde estes pudessem ser formados na exemplaridade e no prestígio moral e ético, onde no fim pudessem sair de lá com diplomas reais feitos para políticos que pudessem ser julgados e reconhecidos pelos seus pares anciãos, esteios e autoridades em determinadas matérias, apoiados na experiência e sabedoria que foram adquirindo no dia a dia, na história e na previsão do futuro, como se faz na medicina, na ciência, sem dogmas, vendo o que está certo e o que não está, continuamente, após árduos anos de estudo e de debate em prol da ciência que está sempre e estará sempre em continua expansão, a ciência política.
Políticos sem altitude moral não podem tomar boas decisões pois quanto melhor for a pessoa melhor será o seu juízo, a sua atitude, o seu agir.
Venha essa Universidade, que ela esteja imbuída da construção da fraternidade universal, hora a hora, passo a passo, dia a dia.
E talvez nessa Universidade para políticos pudesse estar inscrita a divisa:
"Ajuda os outros mas não te ajudes a ti mesmo..."
Ideias de um sonho algures vindo da Primavera de 2018.

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