Texto: Pensando livremente no Jardim das Vitórias - por Marco António Oliveira


11/4/2017

Pensando livremente no Jardim das Vitórias

Pensando livremente nos jardim das vitórias, eu vi um mundo que tem de ter ideais para fugir ao império das máquinas e dos comprimidos que anda por aí, esse império que mina lentamente o espirito popular português numa modorra de sentir, cada vez mais amaciado, efeminado, mole, meditando num vazio sem luz ao fundo que torna a vida uma vida sem obras, que não tem quaisquer desejos de superação de si própria, que se torna uma cópia imperfeita de algo já feito, uma marca registada do imperialismo que constrói robots em vez de seres humanos livres e plenamente desenvolvidos.
Neste jardim onde penso, a vida pode ser algo mais do que este politiquismo do troca de acusações showbiz que olha mais para si ao espelho, como um Narciso Fakebookiano, do que para as reais necessidades do povo, que calado, amedrontado, consente.
Nos palcos de hoje vemos cada vez mais ecrãs que substituem as imagens reais da verdade, vemos filmes que já passaram e achamos ser novidade, vemos as falsas imagens construídas para a venda rápida de comércios inúteis, de interesses voláteis e escorregadios, assistimos à criação e recriação de falsos ídolos que esmagam o nosso pensar, cada vez mais rápido e caótico de ter urgência em assistir nadas e desgraça alheia, sendo vergados pelo medo, na televisão, no telemóvel, no cinema, na internet plastificada feita para clicar e mirar e pagar e navegar em mares de nada que depois se esquecem, e perde-se assim a concentração profunda, e passamos assim a ser borboletas mentais correndo para chamas ilusórias, fáceis alvos de caçadores de níqueis e da exploração porque simplesmente já não se sabe ter discernimento próprio e medir os dias, parar, escutar, saber o que o silêncio no meio das estrelas querem de nós.
Aprendemos nadas fast-food em vez de saborear e meditar pausadamente as páginas de um bom clássico, de ter uma conversa sã com as pessoas mais velhas, de andar e pensar com gente que de facto deu frutos, escutar os porquês das vanguardas iluminantes, que nos possa fazer libertar desta asfixia de sermos sempre sós nestes dias pobres em espírito e frios em coração, é o poder respirar livre e com o coração aceso que urge resgatar para haver melhor futuro, apoiados no saber da história, nas lições do dia a dia, no melhor que se fez e se faz que caracterizou em tempos o povo português.
Os costumes seculares do nosso povo estão a ser substituídos por máquinas de fácil uso que substituem o flashy das corzinhas do telemóvel pela comunicação real entre as pessoas, já não há o cara a cara, o sorriso comercial substituiu o sorriso franco e gentil, a dádiva do coração a coração perde-se em consumismos voláteis e sem valor, as boas práticas que se procuram procuram o lucro, a eficiência servil, já não se aprofunda e exponencia todas as potencialidades integrais do ser humano, a sua liberdade interior de escolher seguindo o seu rumo, cerceiam-se as potencialidades que já estão dentro do ser humano "jaulificando-o", dando-lhe pão e circo, acenam-se distrações estéreis como panaceias neste mundo liquido, como bem dizia Bauman, benfeitor de esclarecimentos.
E saber que apoiados na sabedoria e na prudência, nas virtudes do saber viver e do conviver em sociedade, dentro de uma sociedade cada vez mais multicultural e diversificada, onde se assiste cada vez mais cada um a falar mais para si mesmo do que para o outro, esta Babel do Século XXI, cada vez mais técnica e cada vez menos humana, tão evoluída tecnicamente que parou de evoluir éticamente, moralmente, filosoficamente, pois então, assim, ficamos a saber na pele que desenvolver pessoas e sociedades exige um longo e largo caminho a percorrer, exige auto-análise, reflexão, a partilha sincera e franca de problemas e vitórias, de em conjunto se acharem soluções e meios de melhorar formando um espirito comum, feito de consensos justos e esclarecidos e não vozeares passageiros, que apontem para o progresso e para a paz, paz essa que só virá depois de um árduo esforço de autodesenvolvimento, de vontade em prosseguir ousando sempre pelo serviço desinteressado ao outro, por aí, na partilha sincera que faz crescer os frutos do bem comum à nossa volta, que faça desenvolver cada um e todos procurando o sumo da vida, é aí, é aí a meu ver, é aí que está o Portugal que vi neste jardim, o jardim das vitórias.
E é a utopia que nos faz andar para a frente, o sonho puxa a carroça, e talvez na discussão dessa utopia resulte o ser humano do futuro, na sua ilha longe mas já aqui na terra caminhando para perto dela, dia a dia, passo a passo, cada um de nós, marinheiros do ser e do sempre em expansão evolutiva, subindo as escadas da vida, dando as mãos solidariamente com quem vier por bem.
E talvez seja isto o que vi no jardim das Vitórias.
Os outros não evoluem por nós, somos nós, cada um de nós, os responsáveis pela construção dos nossos sonhos, e essa construção começa aqui na terra, com o empenho em sermos melhores e deixarmos o mundo um pouco melhor do que já estava antes, um mundo mais respirável do que esta modorra de Portugal mole, teatral, fútil, seco, banal, feito de interesses, que busca ídolos com pés de barro para justificar brilhos falsos e falsas aparências de bem, que se maqueiam, macaqueiam, se esboroam como castelos de areia sob as ondas do mar do tempo, e como os sofistas gregos em praças públicas tudo se vai vendendo, e de tudo um pouco cada vez mais, cada um puxando sempre a brasa à sua sardinha, cada um sendo dono de um campo que deveria ser de todos, democrático, partilhado por todos, numa livre discussão sobre o que é verdade e sobre o que é o irreal, aí, aí, nessa luta por sermos algo melhor reside a força do amor que nos sustenta e nos faz acreditar num país melhor.
Urge acordar, sair da caverna de Platão, ir a viajar pelas luzes da razão, da emoção, do coração, da busca interior, do poço profundo da reflexão que leva à outra luz do sonho, é preciso reinventar isto tudo de novo sorrindo, pensando na dádiva desinteressada, no serviço, no olhar terno e franco que ilumina o olhar do outro, na mão que puxa quem está no chão e o/a ajuda saindo essa ajuda genuí, leal, verdadeira, e ao mesmo tempo desinteressada, vinda do coração, feita de peito aberto e em toda a parte, como em tempos havia aqui neste país, uma comunidade, um espirito de grupo, um caminhar juntos.
Hoje ficou sobras e sombras...
Foi mais ou menos isto que vi no Jardim das Vitórias...
O sonho em Portugal hoje esbate-se no comércio, na feira das vaidades, nas intrigas mimimi, no disse que disse que vai esmagando em esquizofrenias mil e em mil palcos, a boa consciência que formou o bom senso dos portugueses durante muitos séculos.
Fragmentos de memórias é o que nos resta ao fim do dia.
Essa consciência que nos existe, que nos faz realmente ser, ainda está no substrato da pele de cada um de nós, no coração, no substrato do que nos ficou das tribos que habitaram este retângulo único de matriz judaico-cristã, mouro, galego, celta, ibero, visigodo, suevo, fenício, romano e tudo o mais que se fez da barbárie civilização, mas que ainda está no húmus de Portugal, tudo isto ficou em pequenos traços no nosso ADN, em lições de sabedoria das vozes do povo, nos humildes, nos simples, nos últimos que um dia serão os primeiros, porque nada sabiam nem reclamam ter o saber, eram apenas e só, o povo, o povo que existe na nossa respiração, pois mesmo que não queiramos todo o passado faz parte da nossa raiz, da nossa memória viva, das sementes que se semearem antes e que resultaram no isto de hoje que pode ser melhor, que pode ser sempre melhor se continuarmos a sega e semearmos melhor ainda, acolhendo tradições, novas escolas de progresso, o melhor da civilização, sentindo o frémito e o eco das novas pulsações, ou então apenas escutar, escutar as lições da história e ter saudades do futuro, de algo que mais do que isto, para que se colham melhores frutos neste Jardim das Vitórias, cada um de nós, se acha em continuo andamento, como se estivessemos num filme feito para haver mais desenvolvimento geral, sendo nós os realizadores e os atores participantes da nossa irrepetível vida, sendo nós, nós, os responsáveis por um novo desenvolvimento das coisas, sermos voz, algo e alguém que proponha uma exaltação dos valores mais nobres do ser humano, aprendidos arduamente na longa caminhada humana, arduamente na experiência humana resultante na depuração constante entre o trigo e o joio.
Essa consciência mítica, ou o melhor dela, na sua parte concreta e real, deve ser resgatada para os dias de hoje e formar novas formas de pensar a realidade, novas formas que serão apenas nossas mas que possam em salutares consensos ser cada vez mais alargadas, filmando a vida com as lentes da razão, do coração e da emoção, e ser, apenas ser, uma chama viva e desperta que una as pessoas numa fraterna corrente rumo ao aperfeiçoamento de si mesmas e do seu redor, do melhor de tudo em todos os lugares sob a lei do amor.
Estes foram os ares que respirei no jardim das Vitórias. E estamos bem aqui...
Viver, e ao pensar neste jardim das luzes onde me sento sei, sei, que é o fruir dos dias, e não o vê-los passar como espumas líquidas que se desfazem no tempo vão, sei que é pelo gozar, que é pelo gemer, que é o saborear as delicias do sonho que se mistura na realidade concreta que nos faz ser, de facto, qualquer um de nós, seres vivos, únicos, genuínos, lutadores de causas locais que possam realmente fazer do progresso humano e altruísta de cada um de nós um dever de ser, uma missão do evoluir para cima, para diante, até ao sem fim do sonhar português, pois é essa a língua que nos une em comunicação e nos constrói a realidade, é onde estamos, é o nosso aqui e agora, é a nossa realidade volátilmente concreta que urge construir melhor para se ser melhor.
E é preciso que Portugal seja melhor...
Esse sonho está impresso nos dias bem vividos das pessoas novas que querem ser em si mesmas crianças aprendizes, flexíveis, atentas, moldando-se com o melhor que os dias trazem, que desenvolvem o sonho e a realidade mutando os momentos mortos numa ascese para a luz, e que essa indefinível luz, essa Luz da Luz, seja o píncaro por onde sobem as escadas dos poetas vivos à solta, todos nós, os livres prisioneiros do amor.
E o que for... Que seja melhor...
Que seja os olhos a ver o amor de sermos Portugal em flor.


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