***** Pensando livremente a espuma dos dias... *****
A quantidade de informação que está na internet e que circula pelas redes sociais assimila-se muito aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman falou como sendo algo de "líquido".
Por "líquido" entende-se algo de permanentemente mutável, não estável, não palpável, volátil, escorregadio como a água...
Vivemos num mundo líquido segundo este sociólogo.
Isto nos mais diversos níveis, desde as relações humanas, à informação que se consome, aos objetos que se consomem, aos próprios ideais que se consomem...
Tudo isto é volátil como a água, diz-nos ele.
Dá que pensar...
Afinal, todo o nosso mundo é volátil, não seguro (como dizia Camões num dos seus sonetos), impermanente (como dizem os budistas) e está sempre a mudar.
Nada mais óbvio, penso que temos isso como uma verdade garantida.
Ora se tudo muda, afinal, o que é estável neste mundo?
É a própria mudança.
A própria sede de mudar e de beber esta água volátil que faz a espuma dos dias vinda das ondas do tempo.
Mudar urge como verdade a proclamar.
E por mais que se tente agarrar o tempo, as coisas, as pessoas, é como se agarrássemos água...
É volátil tudo isso.
Pois o tempo, as coisas, as pessoas, tudo isso muda.
E ficamos muitas vezes agarrados a carcaças fossilizadas no tempo, coisas, pessoas, recordações...
Isso faz-nos ganhar ferrugem, ficamos entorpecidos e parados no tempo quando o tempo, o próprio tempo e o brilho dos dias passa sucessivamente por nós e nos lavra de novo com consequências novas de causas que plantamos a cada segundo...
É impressionante...
Hoje em dia, a urgência das notícias frescas, o vicio das novidades, de ter de haver novidades, o vício das pessoas, o vicio dos objetos, o vício das ideias...
É como uma droga que nos quer fazer alimentar de 'pequenos nadas' como bem diz a canção...
Pequenos nadas líquidos, como ondas passageiras numa praia, ondas que vão e que vêm...
Não há nada de novo debaixo do sol, dizia-se no Ecclesiastes.
Não sei...
É urgente reinventarem-se novas maneiras de entender o mundo, as ideias e as pessoas.
Talvez o conceito de evolução criativa possa esclarecer melhor as consciências voláteis e líquidas de hoje.
Pois afinal crescemos como árvores com pernas, andando sob o sol e partilhando os nossos frutos com a Natureza, que no fundo é o bem comum, o próprio bem é no fundo a essência de tudo.
Que os frutos sejam duradouros e não voláteis como a água.
Aplico este pensamento a todas as coias, às redes sociais e ás pequenas 'informações nada' que circulam na corrente sanguínea do grande corpo que nos faz alma coletiva.
Informações voláteis como água esporádica e passageira, que nos dá dopamina e seratonina para prosseguirmos rápidos como espermatozoides correndo neste vasto campo, ávidos girinos que querem cultivar os frutos que todos desejamos: mais amor, mais paz, mais harmonia, mais verdade, mais justiça, mais ordem, mais beleza...
Neste sociedade líquida triunfa aquele/a cujo intelecto toma decisões esclarecidas no amadurecimento da observação atenta a todos os pormenores do mundo a si mesmo/a.
A relativa 'informação nada' que circula como lixo nas ondas que fazem a espuma dos dias é só um tremeluzir da mente, que depois se esquece se não for pensada, se não for meditada dentro de cada pessoa.
A avidez da informação exterior sem discernimento dá origem a uma ignorância de si mesmo.
Procura-se fora o que já está dentro.
Como um cão atrás da cauda...
Que dias estes.
Que sejam estes dias melhores quando melhoramos os dias dos outros.
Inspirando os outros a serem melhores.
Essa é a grande colheita, a melhor colheita de todas as causas que fazemos neste vasto campo de cultivo chamado mundo...
Neste vasto campo de cultivo chamado mundo...


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