*** Visita cultural à terra do escritor Miguel Torga - encontrei um amigo...***
Era um dia de sol, um Sábado lindo de Outubro, com o céu azul no meu olhar e lá fomos, devorando a estrada até S. Martinho da Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes.
Iamos à casa do escritor Miguel Torga, um dos melhores que conheço em Portugal.
Fomos até à casa onde nasceu, uma modesta casa no centro de S. Martinho, palco da vinda a esta luz de um dos grandes da literatura portuguesa.
Como teria sido quando ali nasceu, imaginei eu, naquele dia de Agosto de 1907?
De onde viera?
Que cara teria antes de nascer?
Que missão teria este irmão das letras?
Ficamos a ouvir alguns poemas seus junto à casa, e a minha imaginação voou quando ele descreve a sua estada confortável no berço à espera do colo da mãe.
O bebé Adolfo, um dia um dos grandes na literatura lusa.
Cresceu, foi para o Brasil, trabalhou duro lá, não ganhou um tostão trabalhando para o tio, e voltou para Portugal, quatro anos depois, maduro de vida, com a universidade da dureza e do sofrimento bem estudada.
Contactando com todo o tipo de gente, lia e devorava literatura, tudo que lhe aparecia pela frente, estudou medicina na Universidade de Coimbra e floriu nas letras um novo nome: Miguel Torga.
Exercendo medicina pelo país, contactou e viu de tudo, lutava por tudo quanto fosse elevar o povo da miséria moral, mental, e monetária.
Um herói desconhecido, discreto, bastante discreto, perseguido pela policia política de Salazar, esteve preso no Aljube, considerado ateu, comunista, excumungado, até pelos da sua própria terra...
A mesma terra que hoje que lhe presta homenagem com vénias...
Ironias da história...
E pude ler, no bem arquitetado espaço dedicado a Miguel Torga, alguns dos seus escritos por entre exposições de quadros sobre a Natureza da região, erma, de fragas, seca, árida, telúrica, com paisagens de tirar a respiração, visto lá do alto o Douro é uma força de Deus...
Imagino o que não deve ser escrever ali, naquele ar puro, bom e acolhedor de S. Martinho da Anta e dos montes ermos em redor, ver aquelas capelas perdidas no alto dos montes, observar o redor azulado entre o céu azul e as pedras milenares que nos testemunhavam ali como se fossemos profanos...
Magnífico!
Depois, fomos até à sua campa rasa, sob uma pedra simples e sem cruz, com a esposa belga, e uma torga magnífica crescendo ali junto.
Discutimos as suas convições religiosas ali mas não chegamos a lado nenhum, uma força da Natureza não tem convicções religiosas, comunga já da religião da Natureza...
Sempre havia nos seus escritos a paisagem junto com as suas palavras, a dureza das pedras, o quente bafo da terra, o ar doido das alturas...
Encontrei ali um irmão.
Um ébrio do culto de Orfeu...
Quero lá saber das convicções religiosas de Miguel Torga!
Ele dá lições disso a todos nós sem nos dizer nada...
E lendo a beleza das suas linhas com música que são os seus escritos, vi, o sol de S. Martinho da Anta, a paisagem de Tras-os-Montes, as urzes ao vento...
E era ali como deve ser na Escócia do nevoeiro sagrado...
Um ambiente de puro encanto majestoso, que levei no meu coração como se leva um amigo, um bom amigo, o amigo que me pintou na imaginação quando era miúdo o conto Miúra, os Novos Contos da Montanha, Os Bichos, como filmes vivos que guardarei até morrer...
Com dúvidas de fé ou sem dúvidas de fé, Miguel Torga é feito de fragas e rio frio, é pedradas na minha consciência de lago parado quando o leio, e sorvo, e respiro Portugal inteiro...
No fim da visita, virei-me para a curadora do espaço Miguel Torga e disse-lhe:
"Cumprimentos ao Torga!"
Sorrimos e saimos de cena.
Levei comigo mais um amigo do éter.
Um génio que às vezes me cerca quando me aproximo de uma montanha e ouço as suas palavras ditas pelas rochas...
Obrigado mestre Miguel Torga!
*****
Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade
Enquanto não alcances
Não descanses
De nenhum fruto queiras só metade.
Miguel Torga
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