*** Sobre o livro ‘Mitologias’ de Roland Barthes ***
‘Mitologias’ é uma coleção de ensaios de Barthes que falam
sobre os sentidos nos 'media' presentes na vida de França dos finais dos anos 50.
Nesta obra de 1957, Barthes tenta saber como as ideologias
dominantes se apresentam a si mesmas como formas de justificar o mundo como ele
deve ser.
Barthes diz que essas ideologias se apropriam da cultura popular
para se propagarem.
Diz também que as imagens construidas pelos media, se lhes
for tirado o sentido, ficam fora do contexto e apenas mostram a ideologia
burguesa.
A questão que Barthes coloca é:
As ideologias dominantes representam-se a si mesmas e
dizem-nos de facto como o mundo deve ser?
Barthes faz uma observação critica da cultura popular e
dá-lhe um novo sentido.
Ele afirma que as ideias são embaladas novamente e retiradas
do seu sentido real para criarem mitos.
Os mitos estão no dia-a-dia da vida de França ao tempo de
Barthes.
As imagens, que Barthes chama de ‘signos’, são muitas vezes despidas
do seu contexto real e o resultado é a
ideologia burguesa.
Trata-se do mito do conforto quente, da agradabilidade
prazerosa, de um mito criado com o efeito de cobertor que conforta, esse é o
efeito que o mito faz.
Por exemplo, na imagem de um ícone revolucionário, de um
lider carismático revolucionário, o que é que ela representa?
Os signos têm poucas relações com as qualidades reais.
Esse líder revolucionário carismático pode ter matado com
fins políticos, pode ter ajudado a forjar um estado totalitário, um estado repressivo
para o povo, que de facto não era livre.
Os signos, as imagens que a sociedade projeta têm pouca
relação com as qualidades reais do lider carismático.
A imagem é um signo com outros usos, é uma imagem que
explora o desejo dos consumidores que querem identificar-se com a juventude, a
rebeldia, o ódio à autoridade que esse líder carismático personifica e
representa.
As pessoas identificam-se com a imagem e não com o facto
real.
As empresas e outras organizações, podem explorar essa
imagem e criar uma segunda ordem de significação, podem criar um novo mito.
Criam um mito que vai significar algo diferente, por
exemplo, uma t-shirt com a cara do líder revolucionário carismático.
Quando a jovem Ana vai comprar essa T-shirt, ela pensa que
está a tomar uma posição e a afirmar a sua revolta e desobediência ao sistema
capitalista e às autoridades.
Mas, de facto, ela compra a T-shirt, um bem capitalista,
numa lógica que está totalmente dentro do sistema capitalista, ela compra um
produto numa loja, produto de que uma empresa concebeu para ela, para que ela gaste
o seu dinheiro dentro do sistema que ela mesma abomina.
Desta forma, a jovem rebelde Ana garante que o sistema
capitalista continue a existir pois colabora com ele.
Ana, mesmo sendo anti-burguesa, colabora com a burguesia
pois ao identificar-se com o seu mito, apenas perpetua o que abomina, comprando
e identificando-se com o seu mito dentro da lógica do sistema.
Assim, Barthes diz-nos que essa imagem de anti-capitalismo e
de rebeldia ao sistema foi reinventada como um mito.
O acto de ‘alegre rebeldia’ de Ana foi a favor da burguesia,
da empresa que se aproveitou do mito do lider revolucionário para fazer uma
t-shirt e lucrar com isso, assim como o dono da loja.
O mito do lider rebelde carísmático e revolucionário foi
reinventado de forma segura para o sistema capitalista como mito de segunda
ordem.
Deu-se um novo significado a este mito que antes era
anti-burguês e anti-sistema capitalista.
Foi pacificamente, ordeiramente e dócilmente integrado pela
ideologia burguesa, que, no fundo, segundo Barthes, é, de forma subtil, a
ideologia dominante.
Barthes descodifica de forma lúcida a lógica do sistema em
que se insere.
Os mitos são uma forma de comunicação como qualquer outra,
onde um símbolo é usado para dar um novo sentido à mensagem.
Despir essa imagem, criticar com clareza o que de facto
existe numa dada ideia, situação, comunicação, é uma arte que requer muito
estudo, muita cultura e atenção ao detalhe.
Descontruir mensagens, contextos, situações, imagens, é como
codificar ao contrário.
É remover os códigos que ali estão e mostrar de forma crua e
real as intenções que estão por detrás das coisas no movimento das coisas no
tempo e no espaço.
Neste mundo onde não existe espaço nem tempo para a reflexão
esclarecida.
Como diz um provérbio chinês:
"Se parares cada vez que ouvires o latir de um cão, nunca chegarás ao fim do caminho..."
Onde todos seguem a multidão e os reis do momento, onde com
sofreguidão o imediatismo esconde realidades por vezes duras de vida,
vemos as realidades amarradas a convenções que perpetuam o sofrimento e a desigualdade,
é necessário, em momentos de remanso, consultar Barthes por vezes para decifrarmos
essas novas mitologias que o mundo constrói, os seus heróis e os seus deuses do
momento, os seus cultos e os seus templos, os seus ritos e as suas
festividades, as suas aclamações e as suas vaias, as suas vitórias e as suas derrotas, para podermos observar, como crianças ainda puras, o desfile animado, e podermos dizer, apesar da multidão afirmar o
contrário, que:
O rei vai nú!


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